Quando a prática de exercícios vira obsessão

O esporte sempre fez parte da vida do funcionário público Felipe Hermes de Lima, 31 anos. Começou criança a jogar futebol e a praticar natação. Aos 19 anos, contudo, começou a insatisfação com o corpo. ;Implicava com o espelho: meu corpo não estava como queria.; Felipe queria ficar forte, impressionar amigos e conquistar garotas. Como todo jovem, resolveu entrar na academia e conseguiu definir os músculos. Porém, o que deveria melhorar sua saúde e autoestima se transformou em problema. O jovem ficou obcecado por ficar mais forte. ;Quando olhava no espelho, me via fraco, magro. Malhava todo dia. Quando faltava, ficava ansioso e irritado. Parecia que estava perdendo força;, conta.

Essa história é bem comum entre pessoas que frequentam academias e o meio desportivo. Porém, o que poucos desconfiam é que toda essa dependência de exercícios, conhecida como vigorexia ; ou excesso de atividade física (overtraining, em inglês) ;, está ligada a um conjunto de sintomas que podem estar relacionados com doenças psiquiátricas. O problema é mais comum na adolescência, fase onde a insatisfação parece ser crônica. O transtorno é uma espécie de oposto da anorexia ; quando as pessoas atingidas se olham no espelho e, por mais magras que possam estar, sentem-se sempre gordas.

Segundo Antonio Leandro Nascimento, consultor da Associação Brasileira de Psiquiatria, os padrões de beleza implantados na sociedade, no qual homens e mulheres devem possuir corpos perfeitos, e a busca pelo resultado rápido e cada vez melhor entre os atletas podem ser as causas principais da vigorexia. ;Há uma insatisfação pessoal com o corpo que leva as pessoas a fazerem exercícios em demasia na busca pela perfeição, que nunca chega. No entanto, isso não é comprovado cientificamente;


Os principais sintomas de um vigoréxico podem ser confundidos com excesso de vaidade. ;O mais comum é tanto a pessoa quanto a própria família não se dar conta de que determinadas atitudes indicam uma doença;, alerta Nascimento. Gastar muito tempo com exercícios, querer resultados rápidos, olhar-se no espelho frequentemente, comparar-se a outros colegas e ficar deprimido por isso são pistas de que há necessidade de orientação psicológica, às vezes somada à administração de remédios. ;A vigorexia pode ser uma modalidade do transtorno obsessivo-compulsivo ou da personalidade obsessiva-compulsiva;, assinala Rafael Boechat, psiquiatra e pesquisador em neurociência e comportamento da Universidade de Brasília (UnB).


A vigorexia acaba derivando em um quadro obsessivo-compulsivo, de tal forma que essas pessoas se sentem fracassadas, abandonam suas atividades e se isolam em academias dia e noite. Esse isolamento pode acarretar outros problemas psíquicos, como a depressão. Boechat ressalta que a vigorexia não é classificada como doença pelos psiquiatras, mas sim como um quadro clínico ou um conjunto de sintomas, relacionados com um transtorno base. ;É preciso estar atento para notar se há um comportamento doentio, senão tudo vira doença psiquiátrica;, diz.

Sinais
Maria do Carmo Lima, mãe de Felipe, disse que sentiu que algo estava errado quando o filho abandonou a faculdade e passou a ficar o dia e a noite na academia. ;Não via mais meu filho em casa. Eu acordava às 7h30 e ele já não estava mais em casa. Não o via no almoço e nem no jantar. Quando perguntava por onde andava, ele dizia que estava na biblioteca estudando e que seguia direto para a faculdade. Meses depois, soubemos que ele havia trancado o curso de administração e vivia os dias na academia.; Maria do Carmo, então, levou o filho a um psicólogo, que o encaminhou para um psiquiatra. ;Meu filho já apresentava sinais de depressão e agia como um viciado;, conta. O jovem foi tratado com psicoterapia e antidepressivos. Hoje, Felipe ainda faz exercícios físicos diariamente, mas não com a mesma intensidade. ;Aprendi com o erro. Não quero mais passar por aquela situação.;

A vigorexia também pode atingir atletas e profissionais da educação física. O professor de educação física e personal trainer Gilson Pereira Britto, 43 anos, tem 25 de profissão e foi vítima do overtraining. Aos 32 anos, ele começou a treinar para uma maratona de 100km. Seu treinos eram baseados no seu conhecimento e experiência como educador físico. Assim como todo corredor, Gilson quis superar tempo e distância para obter melhor resultado na prova. No entanto, o que parecia ser um treino comum passou a se tornar obsessão na vida do personal trainer. Gilson corria cerca 30km por dia, além de pedalar e fazer musculação. Seu volume total de atividade física somava cinco horas diárias, incluindo sábados e domingos. ;Fiquei obcecado em correr mais. Se deixasse de treinar um dia, ficava agressivo e ansioso. Não pensava mais em nada, só em correr;, lembra.

oi então que os compromissos pessoais e profissionais começaram a ser deixados de lado. As noites ficaram mais curtas para dar lugar a mais tempo na pista de corrida. A alimentação se tornou baseada em carboidratos de fácil absorção, para que o corpo obtivesse mais energia. ;Com isso, também começei a consumir efedrina (um estimulante) e suplementos como a carnitina (nutriente de extrema eficiência que ajuda o corpo a produzir mais energia). Em oito meses, perdi 30kg;, conta. Os resultados foram consecutivas gripes e resfriados, diversas lesões musculares, irritabilidade e ansiedade extrema que não o deixava dormir.

O personal trainer se deu conta do ;vício; quando seu primeiro filho nasceu. ;Vi que não fazia mais nada na vida a não ser correr e malhar. Meu filho precisava de mim e eu não me dava conta;, lembra. Gilson não precisou de tratamento. Conseguiu se reeducar e planejar sua rotina. Hoje ele malha todos os dias, menos sábados e domingos, e não corre mais. ;Consigo me controlar, mas se fico um dia sem malhar é uma tortura.;

Mulheres
Flávia Monteiro Sampaio é educadora física e instrutora de musculação há 11 anos. Ela relata que diversas vezes se deparou com pessoas com vigorexia e afirma que as mulheres também desenvolvem esses sintomas. ;Tenho uma aluna que nunca está satisfeita com seu corpo, apesar dela estar bem definida. De tão insatisfeita, ela utiliza anabolizantes para obter mais massa muscular. Chega a ser insano.; A instrutora diz que os profissionais na academia pouco podem fazer, além de conversar e tentar convencer a pessoa de parar com o uso dessas substâncias e de diminuir a carga de exercícios. ;Orientamos a pessoa sobre os problemas que tudo isso pode acarretar. Mas elas nunca aceitam que estão erradas. É possível que até depois de uma orientação dessas elas aumentem por si só a carga de exrecícios;, diz.

E isso tem um custo. De acordo com o especialista em treinamento desportivo e membro do Centro de Estudo de Medicina da Atividade Física da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Leandro Carvalho, com o abuso o organismo pode sofrer lesões musculares, de tendões e, em alguns casos mais graves, fraturas. ;O corpo tem limites biológicos individuais. A hipertrofia (aumento da massa muscular) depende do princípio biológico individual e que quando a pessoa atinge esse limite não há como crescer mais, então acontecem as lesões;, explica.

Se não bastasse, os vigoréxicos também possuem uma preocupação exagerada com a alimentação, sempre evitando gorduras e ingerindo proteínas excessivamente. A falta de outros nutrientes deixa a pessoa com baixa imunidade e constantemente ela é acometida por doenças infecciosas.